Pandemia, ansiedade e a utopia da alienação

Em meio a problemas de saúde mental e uma enxurrada de notícias sobre a Covid19, a busca pela alienação se tornou a mais nova das utopias.

Pandemia, ansiedade e a utopia da alienação

Utopia, aquele lugar distante que quanto mais você persegue, mais ele foge de você. Foto: Lucas Theis / Domínio Público.

Paulo Augusto Neto

Não seria exagero dizer que vivo numa bolha. Talvez, melhor, num cubículo. Sozinho, no oitavo andar de um edifício localizado no Centro do Recife, num apartamento de 25m². Em meio a idas e vindas nas crises de ansiedade, com frequência ouço um conselho: você precisa parar de ler sobre política e a pandemia. Você precisa de alienação.

No início resisti a essa ideia. Era fundamental estar bem informado e acompanhar todos os passos da ciência e da anticiência, este último, protagonizado pelo nosso genocida-mor, Jair Bolsonaro. Mas, enfim, após uma nova sequência de crises, achei que as sugestões tinham sentido e decidi que iria tentar me abster de notícias.

Logo eu, que desde 1993, ano em que entrei na faculdade de jornalismo, não faço outra coisa além de consumir todo tipo de noticiário. Obviamente que não iria dar certo.

A minha utopia em busca da alienação começou direcionada ao Big Brother Brasil. Assistí-lo me faria perder tempo que normalmente eu usaria lendo algum tipo de noticiário noturno. Tudo ia bem até que uma das participantes começou a falar bem de Bolsonaro, dizer que tinha ido em festas e ironizar a pandemia. Isso me gerou raiva – não exatamente do programa, mas dela. E ativou o gatilho para ler notícias.

Passada a fase aguda da crise por notícias, busquei a alienação em algo que sou apaixonado, o futebol. Mas aí piorou. Jogos com estádios vazios por conta da pandemia; campeonatos suspensos por conta do agravamento dos números em seus estádios; antes de cada partida, minutos de silêncio em memória às vítimas da pandemia, sempre com a atualização do número de mortos na tela. Sem contar o eterno – e justo – debate nas mesas redonda, se o futebol deve ou não parar. Era gatilho demais para um esporte só.

Daí, vieram mais conselhos. Foque no trabalho! “Trabalho com notícias”. Saia das redes sociais! “Trabalho gerenciando redes sociais”. Leia um livro! Já li vários. O atual, Os Engenheiros do Caos, sobre fake news e extrema direita italiana. Parece que estou acompanhando o governo Jair Bolsonaro. Não, não dá certo.

Cheguei a uma conclusão que me parecia óbvia ao ouvir os conselhos de amigos. Tentar se alienar em meio ao que vivemos é uma utopia. Por mais que busque me esquivar de temas como política, pandemia e covid19, é impossível. O próprio isolamento social em que vivemos – em que eu vivo – é reflexo daquilo que se quer fazer de conta que não existe.

Isto significa que a procura pela alienação acabou? Claro que não! Sei da importância, neste momento, de cuidar ao máximo da saúde mental. Sigo em busca de me alienar. Assim como sigo torcendo pelo Náutico, acreditando na justiça social e entendendo que a saída sempre será pela via socialista. 

E por que perseguir algo que se pressupõe impossível? A resposta, Eduardo Galeano nos deu: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Sigamos caminhando.

1 Comentário

  1. Lena

    É Precisamente isso. Resta-nos chamar a ansiedade pra tomar um chá porque ela não vai embora tão cedo.

Deixe o seu comentário