O ideal budista é o meu pesadelo

Eu achava interessante a proposta de focar no presente até ser impedida de pensar no futuro. Aproveitar para curtir a própria companhia e buscar paz interior também poderiam parecer boas ideias, mas a verdade é que essa busca fica sem sabor quando perde o elemento da coletividade.

O ideal budista é o meu pesadelo

Foto: Pixabay / Reprodução livre

Lena Costa Carvalho

Os budistas dizem que o nosso mal é não viver o presente. Tendemos a nos prender ao que passou com lamentações, rancores e saudades; e tendemos também a projetar a felicidade no futuro, sempre distante e cheio de condições. Por causa dessas fixações da nossa mente, deixamos de prestar atenção ao instante de agora e de fruir as coisas que estamos vivendo. Desejamos sempre algo que não está presente e esse desejo é a grande fonte de nossas frustrações.

Eu sempre achei essa conversa interessante. Muito identificada com a tendência humana do desejo e com a tendência contemporânea da ansiedade que prende minha mente às projeções de futuro, pensei muitas vezes que deveria exercitar essa coisa de viver no presente.

Minha razão concorda, a terapeuta concorda e até meu desejo concorda que seria desejável parar de desejar o futuro e viver no presente. Mas a verdade é que essa história de “carpe diem” é muito tediosa quando o dia a aproveitar não tem poesia. Na pandemia, todos os dias são iguais, como na verdade uma boa parte dos dias também era em tempos normais. Acontece que, antes, entre o compromisso de trabalho, a louça pra lavar e a casa pra varrer, a gente podia contar com a expectativa de uma festa, uma viagem, um cinema ou uma mesa de bar.

Eu achava interessante a proposta de focar no presente até ser impedida de pensar no futuro. Não podemos planejar mais nada, nem mesmo um passeio banal com as amigas pra o bar de sempre. A tal viagem de férias “do ano que vem” ficou a perder de vista. É como se estivéssemos presos feito o pessoal da Caverna do Dragão, mas sem ter sequer aquela esperança de voltar ao mundo de antes, renovada e frustrada a cada episódio.

Segundo as publicações motivacionais desde o início da pandemia, esse é tempo de investir em aprender a conviver comigo, parar de buscar lá fora o que está dentro de mim, buscar meu próprio desenvolvimento, encarar meus pensamentos e emoções. Isso também sempre fez sentido enquanto foi uma ideia, mas, quando fui obrigada a fazê-lo, esse papo todo desmoronou. Venhamos e convenhamos, autoconhecimento é importante, mas não tem nada de divertido.

Por mais que se diga por aí que podemos encontrar paz ao meditar, respirar, orar e buscar clareza para a mente, a verdade é que tudo isso perde muito do sentido quando se está em isolamento. Pode prestar atenção: essas práticas todas voltadas para o autoconhecimento e a busca da tal paz interior podem até parecer individuais, mas todas as pessoas que eu conheço engajadas nessa busca o fazem coletivamente.

A rigor, pra meditar, a gente só precisa ficar quieta, mas a verdade é que todo mundo que medita há muito tempo faz isso em grupo com muita frequência. Se você sai de casa pra meditar em grupo, é porque não é só da quietude que precisa. Palavras de sabedoria estão por aí nos livros e a um clique no celular ou computador. Nos vídeos e textos já editados, as ideias são expostas de maneira clara, sem os tropeços de uma fala espontânea. Além disso, é possível voltar e ouvir ou ler de novo, em um ambiente confortável, sem interrupções humanas. Ainda assim, as pessoas mais iluminadas que eu conheço sempre fizeram questão de ir ouvir as palavras de outras pessoas ao vivo, rodeadas por mais pessoas.

Não são a paz interior ou a sabedoria que mobilizam essas pessoas a saírem de casa, e sim o fato de compartilharem essa busca. É por isso que eu entendo completamente a angústia de quem quer ir pra igreja na pandemia. Não estou falando dos empresários que querem os templos abertos para receber dízimo, mas dos fiéis que desejam frequentar esses espaços a todo custo.

Pra quem crê, é claro que Deus não está apenas na igreja, mas é lá que está a comunidade e, quando todo mundo senta, levanta, canta, ajoelha e louva junto, de maneira sincronizada, o que emerge entre essas pessoas é uma sensação humana demais, de fazer parte de algo maior. Essa emoção é tão boa que, agora que estamos desprovidos dela, tem gente chegando ao ponto de querer desafiar a morte para a sentir. Nas igrejas, nas festas, nos bares, o que a gente busca é essa mesma partilha, esse fundamento básico da vida em sociedade, como diria o bom e velho Émile Durkheim, um clássico a quem dedico uma certa devoção sociológica.

Que fique claro: eu não estou justificando quem resolve se fazer vetor de transmissão do SARS-CoV2. Expor a si e aos outros nesse momento é uma atitude irresponsável e também estúpida, já que significa trocar uma vida inteira de partilha pelo imediatismo de senti-la pra já. Além disso, é evidente que o sofrimento causado pelo distanciamento social não se compara àquela gerado pelas centenas de milhares de mortes pela Covid-19. O meu ponto aqui é que, além de presos no presente, estamos também presos em nós mesmos e, por estarmos assim à força, o resultado é o contrário do que pregam os budistas: estamos presos no sofrimento.

Não poder desejar e planejar é muito mais doloroso que desejar, planejar e quebrar a cara. Quando as expectativas eram frustradas, pelo menos a gente tinha a oportunidade de afogar as mágoas na mesa de bar e, depois da ressaca, planejar o próximo passo, de peito aberto e prontos para uma nova pancada. Sofríamos sim, mas sofríamos em grupo e tínhamos também vários picos de alegria e esperança.

Nesse momento da pandemia, as pessoas mais chegadas não estão mais a fim de bater papo por videochamada. Tá todo mundo saturado de telas e lidando com esse sofrimento com o que tem em mãos: ler, inventar um projeto artesanal, cozinhar, maratonar série, exercitar-se, almoçar em família, multiplicar a quantidade de plantas em casa, tirar fotos e mais fotos dos gatos dormindo, gastar com o Ifood o que deixou de ser gasto com Uber.

O que mais me intriga em tudo isso é saber que, para algumas pessoas, essa rotina de atividades solitárias dentro de cada há mais um ano não parece representar uma grande perda. Essas criaturas introvertidas, que recarregam as energias quando ficam sozinhas, desafiam o velho Émile Durkheim e deixam claro que, ao contrário do que nós sociólogos gostamos de pensar, tem certos aspectos da vida em sociedade que podem ser mais bem explicados pela biologia e pela psicologia.

Se meu problema fosse apenas teórico, estaria tudo bem, mas o que me angustia mesmo é a inveja. Esse é o momento dos introvertidos brilharem discretamente em suas rotinas silenciosas, sem sofrer o risco constante de colapso mental que nós extrovertidos estamos passando. E, diferente do que acontece com as religiões, filosofias, práticas, grupos e seitas, não tem jeito de uma pessoa extrovertida se converter à introversão. Essa não é a nossa natureza e, mesmo que tentássemos virar introvertidos, provavelmente nossa primeira atitude ao achar que conseguimos seria fundar um clube para reunir os recém-convertidos, botando a conversão por água abaixo em um grande e sonoro brinde.

Presa no presente e confinada à convivência comigo mesma, talvez meu grande ganho tenha sido descobrir à força que esse papo de moderar os desejos e as expectativas não é mesmo pra mim. E, se não posso planejar a viagem de férias ou as queridas aglomerações, resta-me planejar o dia de supermercado, o dia de chefs da quarentena na minha cozinha, os projetos do trabalho e o filme do final de semana. Tudo isso para me manter ocupada enquanto alimento a enorme e reconfortante expectativa de que em algum momento, de alguma maneira, estarei aglomerada novamente, alimentada pelos sons de falas sobrepostas, gestos largos e gargalhadas. Quando esse dia chegar, talvez eu até tope voltar numa dessas sessões de meditação – se o meu grupo estiver lá reunido.

1 Comentário

  1. Polyana

    Sou bem representada na última parte do texto, mas até mesmo nós, introvertidos, tb andamos com faniquito de sair um pouco de casa e, pasmem, saudade de interagir!
    No mais, acho tb que a coletividade tem mt poder, ainda mais pra quem gosta de gente rs

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