Livros por área do conhecimento: um desafio para professores do ensino médio

Diante do volume de material a ser analisado e da necessidade de selecionar uma só coleção didática para todos os professores da área, será preciso ter foco e organização coletiva para tomar uma decisão fundamentada e a tempo.

Livros por área do conhecimento: um desafio para professores do ensino médio

Foto: Pixabay, via Pexels. Reprodução gratuita autorizada.

Lena Costa Carvalho

No início de março, tratei aqui do choque que representava para o ensino médio o edital 2021 do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), adequado às mudanças impostas  a partir da Reforma do Ensino Médio e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Naquele momento, o assunto estava quente porque era chegada a hora de começarem as escolhas do material por parte dos professores, que foram pegos de surpresa em meio a uma quantidade muito grande de informações confusas.

O edital do PNLD 2021 mudou as regras de produção do material didático, criou novas nomenclaturas (os tais Objetos 1, 2, 3, 4 e 5) e passou para a mão das editoras responsabilidades como a implementação da pedagogia de projetos, a formação de professores e a parte da carga horária do Ensino Médio que, com a reforma, tornou-se passível de ser cumprida à distância.

Minhas ressalvas sobre essas mudanças são inúmeras, conforme já deixei claro anteriormente, mas, chegando na metade desse conturbado ano de 2021, é hora de colocar a mão na massa porque o tal “Novo Ensino Médio” já passou e agora está passando por cima de nós.

A Reforma do Ensino Médio pode ser revertida? Sim, inclusive é desejável que isso ocorra. Mas isso vai acontecer antes de 2023? Certamente não vai. Sendo assim, é preciso usar as ferramentas que temos hoje para que a educação oferecida nas escolas seja a melhor possível, apesar dos pesares. Isso começa por evitar que se repita a confusão que ocorreu na escolha do Objeto 1 (livros de Projeto de Vida e Projetos Integradores), entre fevereiro e março deste ano.

Entre a liberação do Guia do PNLD para a escolha do Objeto 1 e o prazo para o registro dos livros escolhidos pelas escolas, passaram-se somente 20 dias. Acrescentando a esse prazo exíguo a falta de informações sobre as mudanças no material didático e a quantidade de obras aprovadas no edital (foram 19 livros só de Projetos Integradores para ciências humanas), o resultado foi uma escolha atropelada, que terá consequências sobre os próximos quatro anos (ao cabo dos quais ocorrerá uma nova escolha).

A situação agora é mais grave porque os livros incluídos no chamado Objeto 2 não têm caráter complementar como os que já foram selecionados. Nele estão as coleções que, a partir de 2022, substituirão os livros que circulam atualmente (de sociologia, história, química, física, biologia, língua portuguesa, etc.). Trata-se do material didático central para os estudantes, que os utilizam permanentemente como fonte de consulta, e para muitos professores, cujo fazer pedagógico comumente está atrelado à organização e às sugestões dos livros didáticos.

Acontece que esses livros estão estruturados de uma maneira muito diferente do que fomos acostumados. Para cada uma das quatro áreas de conhecimento, será adotada uma coleção composta por seis volumes, com até 288 páginas cada, sem sequencialidade e sem divisão disciplinar. Mais ainda, dado que cada área do conhecimento terá uma só coleção, os docentes da área precisam entrar em consenso ou, em caso de escolha não democrática, trabalhar com um material didático que não selecionaram. Diante de tudo isso, esse processo não será fácil.

Em meados do mês de maio, algumas editoras começaram a divulgar suas coleções, convidando os professores a fazerem o download das obras diretamente em seus sites. Enquanto isso, no site do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE), responsável pelo PNLD, não havia (e agora em junho ainda não há) nenhuma informação a respeito das obras aprovadas. Entretanto, fazendo uma busca por “resultado obras PNLD 2021 objeto 2” em um site de buscas, é possível encontrar, em meio a muita propaganda, a lista com o resultado prévio do edital, publicada no Diário Oficial da União em 7 de abril. Lá constam as coleções aprovadas (com falhas pontuais a serem corrigidas) e um pequeno número de coleções reprovadas.

O Guia do PNLD, com a resenha dos livros selecionados, só será divulgado após a entrega do material ajustado e a divulgação do resultado final. A julgar pelo que ocorreu na escolha das obras do Objeto 1, convém antecipar-se.

Foi justamente isso que fizeram alguns professores que, por iniciativa própria, passaram a buscar os sites das editoras para fazer o download das obras de sua área de conhecimento. É uma atitude no mínimo louvável e deve ter feito diferença, já que os volumes físicos só começaram a chegar nas escolas agora em junho. Entretanto, a realização desse esforço de análise de forma individual resultará insuficiente porque o volume de trabalho é simplesmente grande demais para uma pessoa. No caso das ciências Humanas, 15 coleções foram inscritas no edital e 14 foram preliminarmente aprovadas, o que resulta em nada menos que 84 volumes.

Com a intenção de colaborar com esse processo, reúno aqui algumas dicas que podem ajudar quem está se deparando com esse material.

  • Se tiver a opção de pegar o material físico que chegou na sua escola, faça isso. A leitura no computador é mais cansativa, especialmente para quem já está trabalhando remotamente e tem passado os dias a ministrar aula, elaborar e corrigir atividades em frente a uma tela. Além disso, pra quem está acostumado a ferramentas de estudo analógicas como lápis, marcadores de texto e post-its, a análise pode ser mais agradável e produtiva quando feita no papel.
  • Sua escola, no entanto, pode não ter recebido todas as coleções. Essa distribuição implica em logística e investimento por parte das editoras, por isso as que conseguem distribuir mais são aquelas que possuem mais recursos, e não necessariamente as que possuem o melhor material. Com um cadastro no site das editoras, você pode baixar o material que estiver faltando e, assim, completar o acervo a ser analisado. Cada coleção possui um código de inscrição no PNLD, informado na capa dos exemplares disponibilizados. Comparando os livros recebidos com a lista dos aprovados, você pode identificar os que faltam. Em seguida, colando o código da coleção desejada no site de buscas, o site da editora responsável aparecerá entre os primeiros resultados. Daí é só entrar, fazer o cadastro e baixar o material.
  • Não é preciso (e, convenhamos, nem é viável) fazer a leitura integral de seis volumes de cada coleção. Uma leitura por amostragem bem planejada pode lhe dar mais segurança na decisão que a tentativa de fazer leituras exaustivas.
  • Dado que a decisão será coletiva, procure estabelecer um acordo prévio com os colegas da área, especialmente para evitar o trabalho repetido de mais de um docente ler o mesmo volume da mesma coleção.
  • Na divisão de trabalho entre os professores da área, procurem estabelecer uma sistemática para que a avaliação de cada um se baseie em critérios relevantes para todos. Assim, evita-se que alguns livros sejam eliminados por critérios frouxos.
  • Se você vai trabalhar com um grupo pequeno (professores da área da sua escola, por exemplo), é mais interessante começar por uma peneira inicial, com um só capítulo de um só volume por coleção. Nessa primeira mirada, será possível identificar a estrutura que estará repetida nos demais volumes (organização dos capítulos, estilo do texto, exercícios propostos e diagramação), além de uma primeira impressão sobre o nível teórico-conceitual do texto e as estratégias usadas para chamar a atenção dos estudantes. Já nesse momento, é possível entrar em consenso sobre coleções a serem eliminadas e daí partir para uma análise mais detalhada das que passarem pelo primeiro filtro.
  • Todas as disciplinas são importantes, por isso, se uma determinada coleção parece muito boa para a sua disciplina, mas ruim para as demais, ela não será boa para os estudantes. Como pode ser difícil avaliar o potencial dos livros para disciplinas nas quais não temos formação, é importante que uma mesma coleção seja analisada por mais de um professor. Lembre-se da lógica deleitura por amostragem: mais vale ler um capítulo de cada coleção que ler um volume inteiro de apenas quatro coleções.
  • Os seis volumes são temáticos, por isso, olhando apenas um deles, você pode concluir precipitadamente que sua disciplina está sendo ignorada em toda a coleção. Por outro lado, se você analisar um volume e outros dois colegas analisarem outros dois, juntos vocês terão uma boa visão de metade da coleção.
  • Lembre-se, no entanto, que são muitas as coleções, por isso, caso estejam com uma equipe pequena, procurem fechar mais a amostra. Se, depois da peneira inicial, uma equipe de 4 professores tem 10 coleções para analisar, é possível fazer uma divisão para que cada um tome para si 5 volumes, de 5 coleções diferentes. Assim, cada um terá algum contato direto com metade das coleções e, ao mesmo tempo, cada uma delas terá o texto lido por 2 pessoas diferentes.
  • Para analisar um volume, procure observar a estrutura geral (tema geral e tema dos capítulos) e depois escolha um capítulo para fazer a leitura integral do texto.
  • Os manuais do professor têm trazido indicações de que disciplinas estão relacionadas a cada tópico dos capítulos. Isso pode ajudá-lo a entender as divisões temáticas e localizar os materiais que você terá mais condições de avaliar.
  • Evite perder tempo com leituras erráticas. Diante de um material tão extenso, é importante ter foco. Para facilitar isso, montar um quadro de análise comparada pode ajudar muito! Inicialmente isso pode parecer trabalhoso, mas proceder assim vai poupar tempo e permitir que, ao final, vocês possam comparar os livros a partir das anotações, e não de lembranças vagas.
  • É importante que a construção e o preenchimento do quadro de análise comparada sejam coletivos, incluindo os critérios que a equipe da área do conhecimento julgar relevantes. Dito isso, compartilho aqui um quadro elaborado a partir do trabalho de análise de livros didáticos que já venho realizando com estudantes da licenciatura em ciências sociais na UFCG. Ele pode servir como ponto de partida para sua equipe de análise.
  • Caso tenham acesso a um serviço de armazenamento digital de dados (google drive, onedrive, dropbox, icloud), uma boa opção é compartilhar o arquivo do quadro entre os professores que participarão da iniciativa, para que o preenchimento seja simultâneo. Porém, por via das dúvidas, é bom fazer o download do arquivo em cada etapa, pois pode acontecer de alguém mais enrolado com tecnologia apagar dados já preenchidos por acidente.

Por fim, considerando o grande volume de material a ser analisado, o ideal é dividir esse trabalho com mais pessoas. Sendo assim, por que não fazer contato com colegas de outras escolas para construir coletivamente um quadro de análise assim? Os resultados serão benéficos para todos e, de quebra, ficam fortalecidos os laços a partir dos quais outras parcerias podem ser estabelecidas.

Caso você atue como docente de ensino médio na Paraíba e essa proposta tenha despertado seu interesse, quero terminar esse texto fazendo um convite para a construção de um grupo de trabalho para a realização de uma análise coletiva do material voltado para as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. A ideia está sendo lançada pelo projeto “Curricular: lugar de currículo é na escola”, coordenado por mim no âmbito da Universidade Federal de Campina Grande. Começaremos pela análise dos livros inseridos no Objeto 2 do PNLD e, posteriormente, teremos outras ações voltadas para o debate e a construção curricular local no contexto do “Novo Ensino Médio”. Para participar, basta preencher o formulário e aguardar nosso contato.

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