É preciso continuar a onda Itamar

Torto Arado, livro de Itamar Vieira Júnior, bateu recorde de vendas com 70 mil exemplares em um país com 220 milhões de pessoas. Como resolver essa equação ingrata?

Ricardo Pecego
Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior
Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior // Reprodução da capa

Deveria ainda comemorar o feito do já grande Itamar Vieira Júnior.

Comemorei muito, me tocou, assim como seu livro Torto Arado, que trouxe de volta um nome brasileiro a lista dos romances mais vendidos.

Os festejos nas redes sociais são ainda mais esfuziantes, trazem à tona a voz do leitor orgulhoso, autoridades e artistas famosos de outros segmentos se manifestam, mas parei de comemorar, pois já é tempo de sacudir o pouco confete que este carnaval virtual trouxe, em meio a pandemia e voltar ao mundo real: o infeliz mundo do Brasil que não lê.

Estamos comemorando que um dos livros mais vendidos do país que atingiu a marca de 70 mil exemplares, aproximadamente, num universo de mais de 200 milhões de pessoas.

Essa equação está muito longe de ser resolvida.

Como faremos para que milhões leiam? De fato, não tenho uma resposta simples e objetiva, ela transcende de tal forma que transforma o horizonte a se navegar distante. Afinal de contas, hoje 10 milhões de brasileiros passam fome, pelo menos 15 milhões de famílias lutam por um simples emprego, mais de 35 milhões não tem acesso à água potável, sem contar os demais 100 milhões que sobrevivem sem saneamento básico.

Como inserir a leitura se outras prioridades básicas à vida ainda não foram consolidadas? A somar estes números catastróficos pelo menos 60 milhões destes brasileiros não usam a leitura como atividade humana básica simplesmente por não saber ler ou interpretar um texto.

O retrato do Brasil, que Itamar configurou tão bem na sua narrativa, é ainda uma ponta da fotografia completa do nosso país, um universo a se descobrir.

A complexidade deste movimento é tamanha que, mesmo diante das câmeras, em meio a uma entrevista fabulosa tiveram a capacidade de rotular sua literatura de regional. Regional é o Brasil das grandes fortunas, do instagram e do facebook. Este no meu ver é um regionalismo, à parte da sociedade real onde todo dia é uma luta para chegar até a noite e toda noite é uma odisseia para o raiar da aurora com vida.

Por isso que resolvi escrever este texto depois da comemoração. Assim como Itamar, muitos escritores brasileiros vêm há tempos demonstrando o que o Brasil não é somente feito das belas imagens das redes sociais. Não podemos mais compactuar em viver nesta ilha de belezas cercada de misérias por todos os lados e o papel do escritor, além de transpor sua inventividade, sutileza e sensibilidade, precisa oferecer aos que leem uma pitada destas mazelas.

Os escritores devem também estimular novos leitores. Temos que nos dedicar e chegar aos milhões, fazer da leitura o remo que impulsione o Brasil para águas navegáveis e nos tire desta tormenta.

Muitos podem questionar que o papel da formação de leitores cabe aos professores, eu discordo. Acho que na situação em que nos encontramos, temos de nos colocar (escritores) como rede de apoio dos professores, atuar nas escolas públicas e particulares, voluntariamente, em nossas cidades.

Sem esquecer de que as gerações adultas, que já passaram pela escola, precisam muito da leitura também. São elas que hoje tem voz na hora do voto e são facilmente ludibriadas pelos que lutam por poder em trapaças que podemos ler há mais de um século na nossa própria literatura.

Portanto é imprescindível agirmos com vigor, aproveitando a onda que Itamar conseguiu movimentar, arregaçar as mangas e escrever, escrever e escrever.

Depois temos que atuar na difusão desta leitura, ajudar àqueles que nunca nem compraram um livro, oferecer nossas cotas às escolas, aos programas de leitura e alcançar quem a literatura ainda se quer tocou neste país continente.

Desta forma novas ondas vão aparecer neste mar e que possam levar para longe ideias que questionam a presença de Machado de Assis nas escolas. Temos, sim, é que fomentar espaço não só para Machado como para: Graciliano, Drummond, Lygia, Djamila, Guimarães, Carolina, Coralina, Conceição, Ruffato, Cecília, Carrero, Suassuna, Bernardo, Aline, Mariana, Tenório, Krenak, Leila, Lilia, Staut e tantos outros que ainda precisam ser lidos.

1 Comentário

  1. Irene pecego cardoso

    nascida em época onde o diálogo em cada sobre a vida era assunto proibido, busquei nos livros as respostas às minhas dúvidas. Foi assim que comecei a ler e me apaixonei pela leitura. Lindo texto! E se eu puder ajudar de alguma forma, me ensinem como.

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