O real, o virtual e a verdade sobre muitas verdades

Verdade é aquilo que resulta do fato dito e da prova que atesta sua veracidade. Hoje muitas verdades tentam se impor, mas nem todas verdadeiras. Alguém já se questionou o que essa bagunça vai dar ou quem sai ganhando com isso?

O real, o virtual e a verdade sobre muitas verdades

Foto: Gerd Altmann / PixaBay / Reprodução de uso livre.

Ricardo Pecego

Verdade é aquilo que resulta do fato dito e da prova que atesta sua veracidade.

Hoje muitas verdades tentam se impor para um mesmo fato, nem todas verdadeiras. Quando compramos uma revista, o artigo daquele colunista se torna uma verdade, para os leitores que dão o crédito à sua pessoa e ao meio de comunicação que ele representa.

Na mesma semana um importante intelectual comenta o tal artigo em seu blog, desqualificando e demonstrando que o tal colunista não merece crédito. No mesmo dia, outros três sites de notícias, com tendências ideológicas similares do blogueiro intelectual, compartilham e criam postagens apoiando e amplificando o massacre ao colunista. Inicia-se a partir daí a participação dos ativistas de plantão, contrários aos sites que desmoralizam o colunista, publicam postagens e tudo mais que consigam para desbancar o blogueiro intelectual.

Em meio a tudo isso, você, eu e tantas outras pessoas. Somos bombardeados. Lemos e observamos tudo o que surge sobre o assunto e depois de tanta exposição e intimidade com o fato ocorrido, nos damos uma certa autoridade e finalmente nos posicionamos. Seja compartilhando, escrevendo publicando imagens, memes e piadinhas feitas sobre o assunto de um dos lados que mais nos cativa.

Alguém já se questionou o que essa bagunça vai dar ou quem sai ganhando com isso?

Apontar um vencedor é impossível, pois ambos, colunista e blogueiro, são apenas peões dentro desse tabuleiro que se tornou a verdade no mundo virtual. Ambos buscam converter pessoas já estão propensas a tomar partido, tentam modificar nossas perspectivas, como num cabo de guerra mental.

Transformam esse pessoal que fica na linha de frente desta briga das polaridades nos legítimos ativistas de todas as causas. Vez ou outra essa sequência de acontecimentos consegue aliciar até mesmo os brandos e os confusos.

Esse ciclo acontece numa frequência impressionante, a cada minuto, e tendo por vezes como interlocutores personagens da nossa “mídia”, transformados em celebridades virtuais.

Ainda na busca em descobrir a quem interessa esta balburdia, relembro do raciocínio da filósofa Marilena Chauí (pessoa que já teve sua sanidade desqualificada, seguindo o diagrama que descrevi acima). Ela destacou num discurso, a despeito de qualquer ideologia e que acredito ser verdade: que a elite econômica é composta pelos donos dos meios de produção, que estes têm poder político e são favorecidos porque se governa para manutenção de seus interesses.

Justamente para estes personagens, donos dos meios de produção, interessa o modelo do diagrama que expus acima. Enquanto muitas boas cabeças preocupam-se em exercitar e praticar a crítica ferrenha dos inimigos do lado de lá, compartilhando e debatendo nas redes sociais suas opiniões e a culpabilidade sobre o tudo que nos cerca, a turma do poder real, esses tais donos, perpetuam seu comando, pensando e oferecendo formatos de mundo que vão servir de opção para o restante da população. Estes seres utilizam dos meios disponíveis para mobilizar todos.

Acho realmente impressionante, mesmo para pessoas de alto grau de inteligência, esse engajamento na discussão virtual e é óbvio que já participei de diversas (não me orgulho de todas). Alguns destes a quem sempre tivemos admiração se tornam tão chatos num profissionalismo de uma monocultura  estática que passamos a optar por não ler mais suas postagens.

Por isso que, surgido como um relâmpago, pessoas como Leandro Karnal se transformam rapidamente em personalidades, em celebridades da internet. Seus diálogos, antes até mais Bloominianos, retratam que o ataque entre as facções já é ultrapassado, que podemos ser para determinados assuntos pendentes mais à direita, ou à esquerda, utilizando de uma ferramenta muito antiga chamada: bom senso. Com a ajuda de uma grande bagagem cultural, principalmente se comparada à média dos habitantes do mundo virtual, com linguajar que busca através dos simbolismos, passagens mitológicas e filosóficas exemplificar os miomas da vida, aliado a um traquejo didático digno de bom professor, pessoas como Karnal, causam um choque cultural nas redes e com isso legiões de seguidores surgem.

Percebam apenas que os tais donos que citei, não perdem jamais o leme da situação. Eles oferecem as estas pessoas, tal como Karnal, oportunidades, amplitude de alcance e visibilidade e com passar do tempo pasteurizam seu potencial.

Diferente dos “Karnais”, e viventes num outro mundo, pessoas como o polonês Zygmunt Bauman, não serão tão adorados assim nas redes sociais, não devem atingir, ao menos no Brasil, esse patamar de humanus supremus. Justamente porque são detentores de outra uma complexidade teórica, muito ampla e muitas vezes própria. Fazem parte de um rol que está no cerne dessa cadeia produtiva de discussões da intelectualidade virtual e este pensamento vai se esvaziando, sendo esterelizado até que nos memes e nas suas formas mais simples de embate virtual (que tem o maior audiência) praticamente já não reste nada de sua profundidade crítica.

Bauman, numa pincelada de seu pensamento, demonstra a inutilidade de vários aspectos das redes sociais pelo prisma da deterioração das relações humanas, pelo simples aspecto das pessoas estarem mais conectadas a esta construção do seu ser virtual, deixando em segundo plano construção dos cotidianos pessoais reais, mostra que isto aconteceu antes da própria internet. Questiona o paradigma sócio educacional, ao qual submetemos nossas crianças e demonstra as perspectivas de futuro desse formato. É o que podemos chamar de pensador do mundo real.

Assim como o polonês outros pensadores reais, presentes superficialmente no mundo virtual estão na ativa, seja por seus legados, seja pelo seu ativismo presente. Todos alertam quanto ao formato que estamos direcionando a humanidade, assim como as origens dos desvios que nos trouxeram a esta incivilidade. Cito aqui alguns: Edgar Morin, Nelson Mandela, Sidney Schanberg, Roberto Carlos Ramos, Chimamanda Adichie, Mia Couto, Marie Curie, Margaret Atwood, Tony Morrison, Angela Davis, Ailton Krenak, David Kopenawa, Byung-Chung Han entre tantos outros.

São pessoas de alguma forma reescrevem uma trajetória à humanidade, tentam alertar e demonstrar possibilidades para um possível fim, preocupados com as artimanhas que a classe econômica, os tais donos do poder e dos rumos, articulam para nossa interação social na tentativa de se perpetuar, mesmo sabendo que são finitos como nós.

Estes pensadores contudo não pertencem a grupos religiosos ou holísticos, e mesmo assim representam para mim a grande proximidade com o mundo sobrenatural. Um mundo que não temos conhecimento, que é o paralelo de tudo que existe como material, real e virtual do qual fazem parte pessoas conhecidas sem maiores apresentações, basta lhes citar o nome de tão fundamental que seus ensinamentos fruíram, geração pós geração. Pessoas que vieram alertar em seus respectivos tempos a importância da conexão, não está que acontece nas redes, nas fibras ópticas, mas esta que liga  com este outro mundo paralelo, que tende ao que rege o sobrenatural, pessoas como: Babaji, Sidarta, Jesus, Maomé, Kardek.

Precisamos urgentemente tirar os antolhos que ainda nos prendem e compreender que não estamos acorrentados numa caverna, mas talvez num labirinto, construído e modelado em complexos níveis, cada um deles esclarecendo e confundindo a todos em determinados pontos. Certo é que sempre teimamos em ter encontrado a saída, mas com passar do tempo nos aprimoramos e achamos nossa antiga versão prosaica.

Fato é que alguns de nós já não sentem o mais o peso das correntes que nos prendem aos duelos do virtual, as mazelas do real, mas percebo hoje que conforme seguimos em busca da saída deste labirinto que as amarras que nos mantém são mais sutis. Autogestão, crítica, humildade e conhecimento nos fazem percebê-las. Temos que nos ajudar a ser humanos, tem pessoas reais ajudando e sobrenaturais aguardando para um rumo além desta vã filosofia.

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