Fazendo uma conta de padaria, a gente está lascado

Tem algo de errado na matemática do Governo de Pernambuco, pois se a situação é grave como afirmam, não há sentido em relaxar o pseudo lockdown existente e reabrir o comércio.

Fazendo uma conta de padaria, a gente está lascado

Nas contas do governador Paulo Câmara, a situação é preocupante mas Pernambuco já pode reabrir as atividades econômicas. Foto: Hélia Scheppa/SEI

Paulo Augusto Neto

Sou ruim de matemática, ruim de pandemia, mas entendo um pouco de pães e pastéis. E, fazendo uma conta, dessas de padaria, usando exclusivamente dados oficiais, percebo que há algo de errado nos cálculos do Governo de Pernambuco, no que se refere à decisão de relaxar as medidas de isolamento social contra o coronavírus.

Antes, contextualizando: estamos no final de março de 2021, período em que vivemos sobre um lockdown pero no mucho estabelecido pelo governador Paulo Câmara (PSB), onde só podem funcionar serviços essenciais, como concessionárias de veículos. 

E, ao longo da semana que passou, o gestor anunciou que “com restrições de horário”, após 15 dias de medidas mais “rígidas”, as atividades econômicas poderiam voltar a funcionar. 

Isso me dá a entender que, se há um relaxamento, é porque os números estão trabalhando a nosso favor – por “nosso”, entendam da população. Eis qual é a minha surpresa ao dar uma checada no boletim diário sobre os dados da pandemia em Pernambuco, enviado diariamente pelo órgão oficial.

Na quarta-feira, 24 de março, através do boletim, Paulo Câmara avisava que “temos nesse momento 1.325 pessoas internadas em UTIs por causa da Covid19. É um quadro de emergência sanitária, que precisa ser enfrentado com todos os recursos materiais e humanos disponíveis, para que vidas não sejam perdidas”.

Tudo ótimo, discurso coerente. Nesse dia, aliás, o mesmo boletim trazia alguns dados importantes:

  1. Entravam em operação mais 20 leitos de UTI no Estado;
  2. A rede estadual de saúde possuía um total de 2.611 leitos, sendo 1.437 de UTI.
  3. Foram confirmados 2.738 novos casos de Covid nas últimas 24h, dos quais 95% eram leves.

Vamos à conta de padaria:

Naquelas 24h, se 95% dos casos eram leves, 5% não eram. Logo, 136 pessoas precisaram ser hospitalizadas. 

No dia seguinte, quinta, 25 de março, veio a surpresa no boletim: o anúncio de que a quarentena rígida se encerraria dia 1º de abril (parece mentira, né?) com o retorno das atividades econômicas.

Nesse mesmo dia, foram registrados 2.786 novos casos, dos quais 93% eram leves. Ou seja: na nossa conta de padaria, 7%, ou 194 pessoas, precisaram ser hospitalizadas.

Lembrando que existem segundo o governo 2600 leitos. Se 1.325 pessoas estavam internadas, somem-se a elas mais 194. Temos 1519 internações (em UTI ou não).

Seguimos adiante: sexta, dia 26, 2.227 novos casos, sendo 93% leves. Logo, precisaram de hospitalização nesse dia 7% desse total, que dá outras 155 pessoas. Somadas com as 1.519 do dia anterior, 1.674 internações.

Por fim, para não prolongar muito essa matemática, encerramos a soma dos dados no sábado, dia 27. Nesse dia foram registrados 2.154 casos, sendo 94% leves. Ou seja, 129 pessoas (6%) precisaram de atendimento hospitalar.

Em apenas quatro dias, três deles após o anúncio de que as medidas serão relaxadas, 614 pessoas precisaram ser hospitalizadas. Totalizando 1.801 internações no Estado. 

Percebam: em apenas quatro dias, necessitou de hospitalização um número superior a 20% do total de vagas disponibilizadas pela rede pública. Com um agravante: esses números já se mantêm nesse patamar há semanas. E as internações, especialmente as de UTI, tendem a ser longas. No dia 23 de março, o percentual de UTIs ocupadas chegava a 92%.

E não há indícios de redução nos próximos dias.

O Estado está à beira de um colapso hospitalar – há quem diga que já colapsou. Já existem hospitais públicos e privados sem vagas, tampouco possuem medicamento para realizar intubação.

Chega a ser inacreditável que diante deste cenário de terror, ao invés de prolongar as restrições, teremos um abrandamento. Enquanto isso, o som das sirenes de ambulâncias e o choro de quem perdeu entes queridos tendem a seguir fazendo parte de nossas vidas por tempo indeterminado. Salve-se quem puder.

1 Comentário

  1. Lídio Carmelo

    Parabéns pelo blog e pela matéria.

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