Nossa Batalha da Normandia é diária, política e historicamente aleatória

Não sei se Maria José Bastos continua viva depois de 11 meses e agora com 101 anos de idade, mas a aleatoriedade cruel da Covid19 me lembra a Batalha da Normandia. Nada me impressiona mais do que a falta de previsibilidade sobre quem vai morrer e quem vai viver.

Nossa Batalha da Normandia é diária, política e historicamente aleatória

Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina, 2009. Foto: Paulo Rebêlo / Paradox Zero

Paulo Rebêlo

Em junho de 2020, a Sra. Maria José Bastos se recuperou da Covid19 depois de 13 dias internada no Rio de Janeiro. Ela tinha 100 anos de idade. Um dos filhos foi internado no mesmo dia e não sobreviveu.

Por onde ela andará? Será que a Maria José Bastos segue viva, 11 meses depois? Eu queria saber, mas o noticiário só tem as notícias daquela época e mais nada.

Entre 400 mil mortos no Brasil por Covid19 — fora outros milhares por todas as outras causas — o paradeiro de Maria José Bastos me deixa curioso porque ela se tornou um exemplo icônico da aleatoriedade alucinante e cruel do coronavírus.

A morte do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, é mais uma inclusão nessa loteria sem sentido. Já são tantas milhares de exceções que, talvez, a aleatoriedade esteja se tornando a regra.

Há 11 meses, eu ainda lia bastante sobre as descobertas da ciência em relação ao comportamento do coronavírus e os padrões mais ou menos estabelecidos no organismo. Tornou-se impossível continuar, pois a cada dia parece que não existe mais padrão algum.

E aqui recupero um pensamento que tive, 11 meses atrás, sobre o quanto essa aleatoriedade visivelmente injusta me lembrava da Batalha da Normandia. Popularmente conhecida como Dia D (D-Day), é considerada a batalha mais sangrenta — aleatória — registrada até hoje na História do nosso planeta redondo.

Em junho de 1944, mais de 150 mil soldados das Forças Aliadas (EUA, Grã-Bretanha, União Soviética e China) desembarcaram na costa da Normandia, no noroeste da França, para liberar aquele país da ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem chegou pelo mar, foi saudado com bombas e morteiros jogados pelos alemães em direção à praia. Dos 150 mil, calcula-se que 4 a 5 mil morreram ali mesmo, de cara durante o desembarque ou minutos depois. A aleatoriedade desse momento sempre me fascinou desde criança. O desembarque dos soldados, enquanto bombas e morteiros vinham de cima, já foi registrado em livros, filmes, peças e videogames centenas de vezes.

E em nenhum registro parece fazer o menor sentido.

Faz menos sentido ainda que essa batalha seja considerada uma das mais sangrentas da História. Além dos 4 a 5 mil mortos imediatos no desembarque, morreram cerca de 20 mil civis franceses vítimas de bombardeios aleatórios no Dia D, incluindo aqueles que saíram de casa para fugir das bombas.

Somente em abril de 2021, o Brasil sozinho perdeu 82 mil vidas para a Covid19.

Nada me impressiona mais do que a falta de previsibilidade sobre quem vai morrer e quem vai viver.

E também de como uma pessoa, ou grupo de pessoas, toma uma decisão tão estapafúrdia de entregar milhares de vidas à aleatoriedade, como foi o caso na Normandia e como tem sido o caso do Brasil e de vários outros países entregues ao culto da ignorância e ao louvor do obscurantismo.

Naquele dia 6 de junho de 1944, morreram todos os tipos de soldados: os melhores e piores, os preguiçosos e os mais bem preparados, os mais fortes e mais fracos, os mais treinados e os menos treinados.

Em qualquer outra situação, onde houvesse um mínimo de previsibilidade e controle, um determinado tipo de treinamento ou preparação prévia poderia dar mais chances de sobrevivência. Na Normandia, nenhum treinamento ou preparo era capaz de prever absolutamente nada. A única certeza: muitos vão morrer aleatoriamente.

A aleatoriedade de uma bomba jogada de cima transforma todo seu conhecimento numa espécie de capital inútil. Todo seu treinamento e superação, mental e física, não significa nada quando a aleatoriedade regula tudo que irá acontecer nos próximos minutos ou próximos dias.

No mundo inteiro, a maior parte dos relatos médicos — da frustração desses médicos e médicas — vem justamente dessa inutilidade frustrante. É como se todo o conhecimento adquirido e toda experiência acumulada não fizessem muita diferença diante da aleatoriedade da Covid19.

A saúde mental de boa parte desses médicos deve estar mais estilhaçada do que os milhares de corpos na praia da Normandia.

Os otimistas dizem que vamos tirar algum aprendizado disso tudo. Talvez aproveitar melhor os momentos na companhia de quem amamos.

Desde que a gente não perca a batalha para a aleatoriedade. Sem saber quando começa e sem saber como termina.

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