Para os Estados Unidos, a Coronavac não existe

O transtorno histriônico dos americanos elimina a Coronavac da lista das vacinas que salvam milhões de vidas na luta contra a Covid19. E a gente nem merecia aqui no Brasil.

Para os Estados Unidos, a Coronavac não existe

Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Paulo Rebêlo

Os europeus, de modo geral, não têm paciência com os americanos. Chega a ser engraçado fazer análise de discurso da União Europeia sobre a política externa dos Estados Unidos.

Os asiáticos são mais pacientes, mas não é exatamente paciência, é mesmo uma dificuldade latente em conseguir entender o transtorno histriônico dos EUA, essa necessidade pueril de eleger um vilão planetário que somente os valores democráticos americanos podem combater.

Em matéria de vacina contra Covid19, a opinião da gente sobre a política e a cultura da China não importa em absolutamente nada. A vacina chinesa – Coronavac – está salvando milhares e vai salvar milhões de brasileiros.

O laboratório chinês – Sinovac Biotech, fundado em 1999 – foi mais além e ofereceu o que nenhum outro laboratório oferece: transferência de tecnologia, compartilhamento de pesquisas e parcerias reais (e não apenas midiáticas) com a ciência brasileira.

É um caso ímpar se você considerar o quanto o Brasil destratou a China, repetidas vezes, durante a pandemia. Agressões formais via Ministério das Relações Exteriores e, também, agressões informais das crianças Bolsonaro no jardim da infância chamado Twitter.

Além de caso ímpar, é uma oportunidade única de estudo e frustração: quem quiser acompanhar os principais jornais e noticiários americanos, vai achar que a Coronavac simplesmente não existe.

Todas as vacinas e laboratórios são citados com respeito e eventualmente dúvidas, mas a Coronavac nunca é citada. Nas raríssimas vezes em que a vacina chinesa é abordada, é para pegar carona em críticas não-científicas sobre a política externa da China ou acusações da ala Trumpista sobre o laboratório de Wuhan.

Quando a fatídica taxa de 50,4% de eficácia caiu nas manchetes do Brasil, sem que a imprensa explicasse logo o que isso significa, os principais jornais americanos – New York Times e Washington Post à frente – correram para noticiar o “fiasco” e usaram o Brasil como exemplo.

Lá, assim como cá, os 100% de eficácia para evitar sintomas graves de Covid19 só aparecem no final das reportagens.

Hoje em dia, meio que todo mundo esqueceu das imagens do Haiti e do Equador com os corpos abandonados no meio da rua. Com mais de 2 mil mortes por dia no Brasil, tente visualizar como estaríamos se a Coronavac não existisse mesmo. E, de quebra, a gente ainda mantivesse a política negacionista que de fato mantemos pelo Governo Federal.

E sabe o que é mais engraçado? De todas as vacinas disponíveis até o momento no mundo, adivinhe qual é a que tem o menor índice de efeitos colaterais e o menor índice de efeitos adversos graves?

Quem acertar, ganha um rolinho primavera.

E se você acertar qual é a vacina que até agora mostrou eficácia contra três variantes do coronavírus — a britânica (B.1.1.7), a sul-africana (B.1.351) e a brasileira (B.1.1.28) — leva um yakissoba no pacote.

1 Comentário

  1. André Zelanis

    Ótima análise, Paulo!

    Eu só acrescentaria mais um predicado à CoronaVac: ela se baseia no método ‘old-school’ que utiliza o vírus ‘completo’ (ainda que destroçado e ,naturalmente, inativo pelos métodos químicos). Com isso educa-se o sistema imunológico não apenas contra a proteína spike (a da corona- porção externa do vírus),mas contra uma variedade de antígenos (outras partes do vírus, que serão reconhecidas pelo sistema imune e, eventualmente, resultarão numa resposta imunológica mais robusta).

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