Mesmo diante do abismo, nenhum de nós merece o quarto de despejo

Busquemos nos becos da memória as ideias para adiar o fim do mundo e que de alguma forma possamos entender que a vida não é útil.

Ricardo Pecego

Diante do abismo, prestes a ficar soterrado por uma avalanche de pedras sob nossas cabeças e fadado ao interminável assunto sobre brotheres, que não são irmãos, tento respirar. Testemunha da imensa crise de fome em um país, que já vive a maior crise sanitária da sua história, tento respirar. Em vias de nos tornarmos uma das populações que mais valoriza o fuzil e desdenha o livro, ainda tento respirar.

Nesse curto fôlego que puxo para meu peito, que mal oxigena meu cérebro, tenho que encontrar algo de bom para escrever. Preciso de alguma forma estabelecer uma posição de resistência a toda essa maré de jogos políticos e de perversidade que tomou conta do “país do futuro”.

Será que ainda somos o “país do futuro”? Talvez. Santo Agostinho pelo menos me daria motivos para acreditar que sim, pois o futuro ainda está por vir e toda essa situação é presente ou passado. Só fica a dúvida é de quando esse futuro chega.

Temo por isso, meu Santo. Qual o futuro que estamos construindo, se mal conseguimos viver o presente de maneira adequada?

Talvez possamos nos pegar com a desgraça mesmo, tentar uma aliança com esta que vive tão próxima da gente aqui no Brasil, pedir que atue com força, nos setores certos. Algo do tipo: furacão localizado no Palácio do Planalto faz apenas cinco vítimas, todos homens da mesma família. Seria uma desgraça, ela não perderia seu caráter repugnante, contudo essa em particular fosse …

Me perdoe. Esse texto pede uma variação no tom. Vamos falar de coisa boa! Meditando aqui em busca de assuntos leves: meio ambiente não dá. Talvez sobre cultura, melhor não. Poderia ser um filme que assisti! Sem chance! Ontem perdi o sono assistindo a um documentário sobre o Cristiano Ronaldo na Netflix, que só conta sua história até 2014, sobre sua gana em ser o “bola de ouro”, um fiasco profissional, pessoal e esportivo. Retomando a meditação…

Eureca!

Relendo os parágrafos acima só penso que somos nós brasileiros de alguma forma muito resistentes. Isso é bom. Definitivamente uma coisa boa, pois imaginem que diante destes cenários, milhões de nós que não têm Netflix, não utilizam dos meios culturais restantes, não observam o que acontece ao nosso meio ambiente, não se ligam nas ações diárias que Belzebu e seus quatro cavaleiros do apocalipse aprontam todos os dias. Pessoas que já vivem sem condições sanitárias desde sempre, já sentem a fome e a pobreza como companheira que há tanto lhes perturba a vida, na luta pela sobrevivência.

Essa resistência deram ao nosso povo (sabe-se lá quem) ombros tão fortes que suportam tantos desmandos políticos, corrupção, sustentam os novos bilionários, que surgem em meio a desgraça. Desta resistência surgem Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Aílton Krenak, gente pobre de nascença e que hoje tem voz. Que utilizam desta voz, que para nossa felicidade, toma força em meio a estas trevas instaladas por aqui, melhor dizendo: em meio a estas trevas sob as quais vivemos de quando éramos ainda colônia de Portugal, mas não enxergamos, meio que encantados com alguma frívola distração, mas que hoje estacionados, dada a pandemia, podemos observar e precisamos agir para dissipá-la.

Tantos outros são os que conseguem transmitir a sabedoria como um bálsamo para as angústias da vida, como as que impõe que poucos devem ter tudo e que os demais devem permanecer em sofrimento.

Busquemos nos becos da memória, as ideias para adiar o fim do mundo e que de alguma forma possamos entender que a vida não é útil. Que nosso entendimento permita refletir, compartilhar e traçar um caminho melhor para todos, pois nenhum de nós merece o quarto de despejo.

1 Comentário

  1. Carmen Silveira

    Tentando respirar, não querendo ser tão resistente para aguentar essa vida.
    Parabéns Ricardo, um texto atual, forte, mas que dá vontade de ler até o fim.
    Acabo de ler o Krenak, acho que a gente não deu certo.

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